Mixtape: #366Barbudinhos | Sobrebarba


Mixtape: #366Barbudinhos

Ele é um sujeito com uma personalidade própria, muito autêntico, extremamente crítico e reflexivo e procura passar as coisas que estão no coração. “É um romântico”, resume o grafiteiro de 28 anos Fernando Sawaya, o Cazé, sobre o “semi" alterego/auto-retrato Barbudinho, seu principal personagem.

Barbudinho

“O Barbudinho surgiu a partir da vontade de sair um pouco do estereótipo social do barbudo. Ele nasceu barbudo, rosa, sem olho nem boca para enfatizar mesmo a questão do pelo facial. A partir disso, foi mudando com os acontecimentos. Há quase um ano, eu transformei ele num personagem andarilho, nômade, com casaco e mochila nas costas, que vai vagando pelo Rio e por São Paulo, transitando pelos bairros, tem a altura normal de uma pessoa e olha no olho de quem passa pelo local”.

Barbudinho pela cidade

Nascidos em 2008 em um muro da esquina da avenida Princesa Isabel com a Nossa Senhora de Copacabana e em outro na rua Barão de Ipanema, ambos no Rio, esses grafites seminais não estão mais por lá. "Grafite é efêmero. Ele vai pro muro e não se sabe o que vai acontecer com ele, por isso temos que desenvolver a questão do desapego. Se não tiver uma presença forte na rua, ele some. É importante demarcar espaços, e, se for transmitindo uma mensagem, melhor ainda”, conta ele, que divide seu tempo entre trabalhos de oficinas de grafite em ONGs do Rio e os grafites que faz em portas, portões e lugares deteriorados (“a ideia é chamar a atenção para esses espaços”).

Barbudinho pelas portas de locais deteriorados

"Na Ladeira do Castro, que liga Lapa a Santa Teresa, promovemos uma ressignificação do espaço público, uma auto-afirmação e valorização da rua. Estamos chamando vários artistas do mundo inteiro para transformar a ladeira em um beco de arte.”

Guerra do Ego

Bem no início da ladeira, aliás, Cazé já concluiu um muro de 15 metros de largura, num mural que ganhou o nome de “Guerra do Ego”, releitura do famoso quadro de Pedro Américo. Na versão contemporânea, Barbudinho aparece 50 vezes em várias situações, inclusive lutando contra ele mesmo… “Trabalhei questões de individualidade, do artista e do ego inflado."

Sobre a própria barba, esta o acompanha desde a adolescência. “Sempre fui o mais barbudo da sala de aula.” Isso lhe valeu algum preconceito na escola, algumas agressões da policia e piadinhas na rua: “Uma vez estava no sinal, na praia, e gritaram de um carro: ‘Não tem gilete, não, sujismundo?’” Mas Cazé sempre curtiu o barbão. “Se tirei a barba 2 ou 3 vezes foi muito. E para renovar o pelo apenas…”

Cazé

Hoje em dia, muitos barbudos se identificam com seus desenhos. “Nas redes sociais, Fulano marca Beltrano, que marca Sicrano… Mas o Barbudinho acredita não só na barba, e sim no posicionamento de ser você mesmo, de não se moldar a uma empresa, por exemplo.

A questão da bicicleta também é muito importante, pois eu sempre pedalei, minha mulher também pedala…. Procuro levar um pouco das minhas reflexões pessoais pra isso, um pouco de salvação para nosso caos, contra a poluição sonora”, conta Cazé, que, em 2016, traz mais mudanças.

Para este ano, ele assumiu o compromisso de desenhar um Barbudinho diferente por dia. O desafio, que já ganhou o nome de #366barbudinhos (afinal de contas, 2016 é um ano bissexto), trouxe novas aventuras (Barbudinho já pintou num barco, na feira, pedalando, em cima de um pássaro…), e, sobretudo, novos ares: o personagem já apareceu em releituras de Mondrian, Escher, Basquiat…

Projeto 366 Barbudinhos

“Sou formado em criação de personagens, então fico com isso na cabeça… Acaba que a gente fica desenhando muito para os outros e fica sem tempo pra fazer alguma coisa pra gente mesmo. Esse projeto me fez voltar a alguns estudos de história da arte, de técnicas. Como eu nunca tinha parado para estudar cada pintor, pensei ‘por que não aproveitar esse momento?’ Era exatamente disso que eu estava precisando.”

Alguns dias antes do bate-papo com o Sobrebarba, Cazé estava às voltas com Caravaggio, “o papa da luz e sombra”. Antes disso, parou pra estudar as técnicas de anatomia de Michelangelo. “Tudo me estimula”, define o grafiteiro, que há mais de 15 anos vem colorindo muros de Copacabana, Tijuca, Vila Isabel, Lapa, Centro, Jardim Botânico, além de Niterói, Paraty, São Paulo, Ubatuba João Pessoa… 

A melhor parte de trabalhar na rua? “É verdadeiro. Você tem o resultado ali na hora. O cara vai passar e dizer que está horrível, que está lindo, que o traço está esquisito, que a cor é legal… Você não perguntou a opinião da pessoa, mas ela entende que aquilo está ali pra ela. É muito democrático.”



Assim, para ouvir as vozes das ruas, ele deixa fone e músicas em casa. “Ouço música o tempo todo, mas nunca pintando. Gosto de escutar o que está acontecendo na rua, grafite pra mim é uma coisa viva. Tenho que me concentrar e estar conectado para pintar”, explica ele, que, nas folgas, ouve Tim Maia, Secos e Molhados, Mundo Livre SA, Alceu Valença, Cartola…

É um pouco disso que ele separou para a Mixtape da semana. Aperte o play e inspire-se.

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